quinta-feira, 29 de março de 2018

Cartas em branco I

Quantas foram as vezes que eu tentei voltar para a sua vida e deixar de ser só mais uma alma vagueando a procura de sentimentos que me fizessem sentir completo? Quantas vezes eu não segui seus passos, tentando encontrar a mim mesmo?
Há sempre um mundo amanhecido para buscar respostas, e de repente, a vida não para por respostas tolas - Nós paramos no tempo. Eu ainda posso lembrar como se fosse ontem, de uma velha música que dizia: "existem coisas na vida que não podem ser", e como eu lutei para não acreditar naquilo.
Quantas batalhas eu não travei comigo mesmo para sempre manter você por perto. Quantas vezes meu amor me pareceu tão sincero e puro, a ponto de realmente se tornar isso?
Incontáveis vezes eu estendi meu coração, sangrei em cima de minhas virtudes. Noites insones, rumos e caminhos perdidos, músicas que foram minha morada, conversas ensaiadas, conversas nunca tidas, brigas engasgadas, atos perdidos no tempo, memórias... memórias que remanescem. 
Eu fui tão devoto aos meus sentimentos, mas me vi esmagado por eles. Me sentia humilhado, como se tudo que eu havia me tornado, havia sido por você, tudo o que eu havia experimentado, parecia que tinha um toque seu. Todas as coisas, porque você sempre estava ali comigo.
E eu segui durante muito tempo procurando uma resposta clara, tentando entender o princípio de tudo. Não querendo admitir para mim mesmo, o duro pesar de um amor, cujo era insuportável de ser carregado - sozinho.
Eu pensei que o tempo me faria enxergar, que eu iria encontrar "algo" nos próximos anos. Mas quanto mais tempo passava, mais eu sentia o pesar dentro de mim. Até que um dia, aceitando as migalhas que me foram jogadas, eu decidi por mim mesmo que, aquele sentimento era real, era onipresente e maior que tudo que já havia me acometido... e ainda estava vivo. E cabia somente a mim mesmo, a decisão de aceita-lo totalmente dentro de mim, e não fazer dele divisível para ser vivido em partes. 
Ou eu aceitava como um todo, ou eu continuaria a viver com migalhas. Porque nem por um alivio, eu poderia dizer que viveria com nada, e isso no meu intimo era tudo o que eu mais temia?
Demorou um bocado, quiçá pela falta de amadurecimento, quiçá pelo medo, quiçá porque deveria ter acontecido assim, para que eu pudesse absorver cada pedaço meu que ficou para trás todos esses anos. E foi quando uma chance me bateu a porta, de um mundo nunca experimentado, não sozinho. 
Quantas vezes eu não trafeguei pelas trevas, renegando-as, e ainda em busca de respostas. Meus demônios disseram: ‘volte só quando estiver, verdadeiramente preparado, para finalmente descobrir, o que é realmente dor, e o que é amor’.
Eu confabulei comigo mesmo, não consegui me aprofundar nos meus medos, porque eu sentia medo...
Medo de perceber que o amor que eu carregaria, eu carregaria sempre sozinho, medo de perceber que tudo foi uma grande mentira, e eu fui incompreendido por um amor tão simplório e raso, mas eu acreditei devotamente de que era mais do que... do que... do o que?   
Tentativas frustradas, práticas abandonadas. Eu fui dilacerado pelas incertezas, me afoguei em magoas, esmagado por sentimentos desconhecidos, a minha mente estava um caos, e o coração era uma casa velha, abandonada, que nem ratos queriam morar diante de tanta decadência, eu não conseguia manter um relacionamento, sem que o sinistro de você me acontecesse das maneiras mais improváveis. E eu sempre estava ali, com dor e sem amor, para enfrentar um mundo por você, e você queria somente se divertir cada vez mais. 
Eu estava apagado, talvez quase morto, sem nenhuma perspectiva de sair dos meus mesmos erros, havia medo em meu olhar, desespero nos meus atos... 
Eu tinha tanto medo de me livrar daquele peso, que eu já chamava de amor, que já não era mais correspondido, mas que há tanto tempo fazia parte de mim, era a única coisa que eu podia agarrar, era o que me levava para perto de você, ou talvez porque aquilo já havia se tornado... eu... 
Desacreditado, acostumado com a dor, me debrucei em amores e pessoas irrelevantes, os prazeres mundanos me corrompido, e eu gostava do sexo sujo. Eu mandava mensagens, e ainda encontrava você perdido pelos lugares, e eu ainda estava esgotado e sozinho. Nossos encontros, que antes eu encarava como algo tão profundo, irracional, se tornaram tão amenos, coisas comuns e casuais. Não havia graça nos olhares, corpos opacos, o sexo não era sujo, e nem bom. Eu fingia maior parte do tempo. 
Fracassado, era o que eu sentia, eu não procurava mais por saídas, e nem por amores, estava cabisbaixo demais para qualquer solução, envolvendo-me mutuamente com pessoas que eu sabia que me arrependeria, pois eu estava procurando encontrar algo (eu sabia) que não seria encontrado. Eu não conseguia compreender a dor aguda desse pesar, como eu poderia ser tão devoto a esse sentimento, mas quando eu me encontrava sobre seus braços eu sentia como se nada daquilo fosse bom o suficiente? Como se eu estive tentando acobertar o comum pelo eterno.
Me pergunto por onde eu estava quando a merda toda aconteceu, quando foi que eu me afundei por um sentimento tão algoz que me desumanizou tanto. Quando foi que eu me comprometi com esse pesar?